Política de cookies Lusíadas Saúde
Usamos cookies em todos os nosso sites para melhorar o desempenho e a sua experiência como utilizador. Ao prosseguir, está a declarar aceitar todos os cookies dos sites do grupo Lusíadas Saúde.

Política de cookies
Lusíadas Cascais
Contacto Geral 24h

Antibióticos: usar com precaução!

Os antibióticos são utilizados para o tratamento de infeções causadas por bactérias mas não estão isentos de riscos. De cada vez que os toma, está também a aumentar a resistência das bactérias e a comprometer a eficácia futura dos tratamentos. Em Portugal, estima-se que em cerca de 30% dos casos os antibióticos sejam tomados desnecessariamente.

 

O que está em causa

Os antibióticos são substâncias químicas (naturais ou sintéticas) que interferem com as funções vitais das células dos microrganismos, promovendo a sua morte ou a inibição do seu crescimento. Quando Alexander Fleming descobriu a penicilina em 1928, e esse primeiro antibiótico passou a ser usado para fins clínicos a partir dos anos 40 do século passado, a medicina conheceu uma verdadeira revolução. Mas o sucessivo desenvolvimento de novos antibióticos, e a sua acessibilidade, vieram criar um problema que atingiu nos últimos anos proporções preocupantes: a generalização do uso destes fármacos levou ao aparecimento de novas estirpes de bactérias, multirresistentes, capazes de comprometer a eficácia presente e futura dos antibióticos.

 

Um problema de saúde pública

Em todo o mundo, morrem anualmente 700 mil pessoas por infeções causadas por bactérias multirresistentes (25 mil só na União Europeia). E as estimativas da Organização Mundial da Saúde para o futuro não são otimistas: em alguns países, as taxas de resistência aos antibióticos mais do que duplicaram nos últimos anos e, se nada for feito, a mortalidade anual atribuível à resistência aos antibióticos em 2050 poderá atingir as 10 milhões de pessoas, um número que equivale sensivelmente à população de Portugal, podendo transformar-se na causa mas frequente de morte em comparação com o cancro. Como já foi referido o aumento da resistência aos antimicrobianos (neste caso aos antibióticos) deve-se a vários fatores – entre os quais a utilização excessiva e inadequada nos seres humanos é um elemento importante.

Para abordar este fator, a educação continua a ser uma arma fundamental, como foi assinalado recentemente pela Comissão Europeia no seu plano de ação para combater a resistência aos antimicrobianos. Sabemos que:

  • 57% dos europeus não sabe que os antibióticos são ineficazes contra os vírus;
  • 44% dos europeus desconhece que os antibióticos são ineficazes contra as constipações e a gripe.


 

Só uma utilização mais responsável dos antibióticos pode ajudar a combater o desenvolvimento de bactérias resistentes e manter a eficácia dos antibióticos.


A resistência aos antimicrobianos transcende a esfera da saúde, apresentando um grande impacto económico, não só pelos elevados custos do tratamento como também pela redução da produtividade. Os custos associados a resistência aos antimicrobianos foram estimados em 1,5 biliões de euros e, a manter-se esta tendência, o Banco Mundial prevê que possam ter para o ano 2050 um impacto económico semelhante à crise financeira de 2008.


 
A resistência das bactérias

A resistência aos antimicrobianos é a capacidade dos microrganismos de resistir ao tratamento antimicrobiano, especialmente e neste caso ao tratamento com antibióticos. Mas é importante relembrar que os antibióticos só são eficazes contra as bactérias e não têm qualquer efeito sobre as infeções provocadas por vírus. As bactérias são organismos unicelulares, procarióticos (desprovidos de núcleo ou organelos, que são pequenas estruturas com funções específicas dentro da célula), de dimensões microscópicas, que podem ser encontrados na forma isolada ou em colónias. Ao contrário dos vírus — que necessitam de uma célula hospedeira para se reproduzirem —, as bactérias são "autossuficientes", multiplicam-se por divisão celular. Face à ação de um antibiótico, por mutação genética ou aquisições a partir de outras bactérias, estes microrganismos desenvolvem uma natural resistência. Isto acontece mesmo com o uso apropriado de antibióticos, mas o uso inadequado de antibióticos tem permitido uma aceleração do processo e aumentado a resistência aos antimicrobianos: 70 por cento das superbactérias identificadas recentemente mostram-se resistentes a mais do que um antibiótico. 


 
As consequências

O uso desnecessário de antibióticos potencia a emergência de resistências, provoca mais efeitos adversos e eleva os custos de saúde, quer por obrigar ao desenvolvimento constante de novos antibióticos, quer por sobrecarregar as despesas hospitalares com o controlo das infeções. Em Portugal, anualmente, as infeções em meio hospitalar não só continuam a matar, como acrescentam na fatura 300 milhões de euros de despesas anuais. 


 
Um ciclo vicioso

Os antibióticos, quando utilizados de forma inadequada, permitem às bactérias gerar resistência aos mesmos, obrigando à utilização de mais antibióticos e a combinação de várias classes de antibióticos para tratar as infeções causadas por estes microrganismos, o que por sua vez incrementa essa resistência. 


 
Uma medicina defensiva

Os antibióticos só são eficazes contra as bactérias e não têm qualquer efeito sobre as infeções virais. Mas a verdade é que não existem testes rápidos e 100 por cento seguros que permitam diferenciar uma infeção viral de uma infeção bacteriana. E, face à incerteza do diagnóstico — e, por vezes, à pressão dos doentes, que confiam nos antibióticos para uma cura mais rápida e eficaz — muitos médicos optam por uma medicina defensiva.



Antibióticos não curam constipações e gripes

A responsabilidade é coletiva, mas também individual. Resistir à utilização abusiva de antibióticos ajuda a prevenir o agravamento da resistência aos antimicrobianos, assim como reduzir o surgimento de efeitos adversos relacionados com a utilização dos antibióticos, que podem ir de toxicidade hepática à insuficiência renal, descalcificação óssea ou dentária, surdez e até a morte.


Os antibióticos só devem ser tomados quando estritamente necessário e não é demais repetir que, apesar de 44% dos europeus pensarem que estes fármacos curam as constipações e gripes, isso não é verdade, uma vez que a origem dos problemas é viral. Como prevenção, considere a vacinação e siga as recomendações do seu médico. Lembre-se que para as gripes e constipações deve:


- Utilizar analgésicos (como o paracetamol ou o ibuprofeno) para aliviar as dores e febre;


- Os medicamentos anti-inflamatórios como os medicamentos em pulverizador ou pastilhas para chupar, ajudam-no a engolir melhor;


- Se tiver congestão nasal pode utilizar soro;


- Os anti-histamínicos aliviam os sintomas de congestão como o nariz entupido, os espirros e a comichão no nariz;


- A ingestão de líquidos e o repouso contribuem para a melhoria dos sintomas;


- Mantenha uma temperatura constate e proteja-se do frio.


 

Como usar os antibióticos


No caso de necessitar de um antibiótico — sempre por indicação médica — faça-o de forma responsável e adequada. Explicamos-lhe três cuidados importantes a ter:


1. Tome sempre o antibiótico durante o tempo indicado pelo seu médico


Se não tomar o antibiótico até ao prazo indicado, algumas bactérias podem não morrer e pode voltar a adoecer. As bactérias que ainda estão vivas poderão tornar-se resistentes e fazer com que a infeção se torne ainda mais difícil de tratar.


2. Tome o antibiótico a horas certas


Não cumprir os horários de toma recomendados aumenta o risco de haver períodos em que antibiótico não está em circulação, permitindo que as bactérias se multipliquem e ganhem resistência (diminuindo a eficácia do fármaco). Em sentido inverso, pode também potenciar períodos com excesso de dosagem, aumentando o risco de toxicidade. 


3. Nunca tome sobras de antibióticos, seus ou de outra pessoa


Existem antibióticos específicos para o combate a bactérias específicas e é errado supor que o antibiótico de outra pessoa (ou algum que já tenha tomado) irá funcionar. Se, por conselho médico, precisar de interromper a toma de um antibiótico, entregue o que restou da embalagem na farmácia. 


Colaboração:  António Figueiredo, Coordenador do Grupo de Coordenação Local Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos do Hospital de Cascais


Especialidades em foco neste artigo:  Medicina Interna